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Artigo Selecionado
Renovação
Categoria: Novidades Tecnológicas 27/02/2008
O bom de já ter vivido um certo tanto é poder usar o que foi possível aprender com a observação da água que se viu passar por debaixo da ponte. A ação dos militares colombianos em território equatoriano para pôr fim vida de Raul Reyes e outros guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) reavivou na minha memória a Chacina da Lapa. Em dezembro de 1976, forças do então 2° Exército (hoje Comando Militar do Sudeste) invadiram um sobrado no bairro paulistano com esse nome e executaram dois membros da direção nacional do PCdoB, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Na operação, foram presos os demais dirigentes que haviam participado de um encontro do comitê central do partido, realizado no local. Um deles, João Baptista Drummond, morreu na cadeia, vítima de tortura. O PCdoB vinha de ser derrotado na Guerrilha do Araguaia, sendo que a reunião destinava-se exatamente a uma avaliação política dos resultados da luta armada desencadeada pelo partido no sul do Pará. Hoje, o PCdoB tem deputados, um senador e até um ministro. Digamos que se tornou um partido normal, ainda que pequeno, e integra o jogo político. Como é natural em organizações do tipo, cultua a memória de seus dirigentes e militantes que morreram na luta contra a ditadura. Já os que participaram da ação pelo lado das Forças Armadas ficaram na poeira da História, para ser gentil. O mesmo culto se dá em outros casos, como o do capitão Carlos Lamarca (leia Uma missão bizarra na França) e do líder comunista Carlos Marighella. A guerrilha (urbana ou rural) no Brasil foi dizimada, mas, quatro décadas depois, a chefe da Casa Civil é uma ex-guerrilheira e o ministro da Comunicação Social é um sujeito que participou do seqüestro de um embaixador dos Estados Unidos. Resta direita o esforço tão inglório quanto inútil de tentar achincalhar os adversários (dela) mortos. Entre os vizinhos é a mesma coisa. No Uruguai, por exemplo, ex-tupamaros são a força majoritária da coalizão de governo do presidente Tabaré Vazquez. Na Argentina, a corrente política dominante, os Kirchner, deita raízes históricas no peronismo radical. No Chile, com todos os erros políticos que possa ter cometido, a figura de Salvador Allende cresce a cada dia na memória histórica do país. Já Augusto Pinochet, justa ou injustamente, caminha a passos firmes, como diria Leon Trotsky, para a lixeira da História. É isso aí. São fatos. Alguns creditam essa hegemonia digamos semiótica da esquerda sobre a direita a uma suposta conspiração cultural, tomada das estruturas culturais da sociedade pelo marxismo e seus congêneres. Colocam a culpa em Antonio Gramsci (leia Esconde-esconde). Eu, que desde novo aprendi a desconfiar de teorias conspiratórias, tenho outra opinião. Ela está expressa num post bem-humorado, Os resmungadores da República. Está também no que escrevi por ocasião das críticas ferozes feitas contra Che Guevara no mais recente aniversário de sua morte. Leia A pergunta do capitão Nascimento, o prestígio de Che Guevara e a violência para o bem. Leia também O ódio lembrança dos mortos reflete o medo na alma dos vivos e O El Pais talvez ache que Petáin foi um herói. Está tudo ali. A esquerda da periferia do capitalismo leva vantagem no torneio das simpatias porque está associada historicamente luta contra a injustiça e a favor da nação. Daí por que a direita não consegue forjar heróis. Resta-lhe resmungar contra os alheios. Um trecho de Os resmungadores da República:
A direita vive a falar mal dos nossos heróis porque não tem como falar bem dos heróis dela própria. O financista que, graças aos juros escorchantes, remove da formação social as manchas de atraso representadas pela pequena propriedade ineficaz. O grande sonegador de impostos que drena as arcas do Tesouro e, com isso, evita a concentração de recursos da sociedade nas mãos de um estado ineficiente -para que, com mais dinheiro no bolso, a sociedade possa criar ela própria a riqueza que vai proporcionar um mundo melhor para todos. O ricaço dono de imóveis que despeja o modesto inquilino por falta de pagamento e, assim, ajuda a consolidar a regra de que contratos são feitos para serem cumpridos, de que a segurança jurídica é um valor universal. O executivo de sucesso que promove um downsizing capaz de levar a empresa a patamares inimagináveis de produtividade. Quem se candidata a fazer um filme com tais personagens como heróis? Ninguém. Esse pessoal só é herói em revistas de negócios. Em nenhum outro lugar.
Bem, depois da diversão vamos em frente. Qualquer pessoa razoável tem que ser contra o terrorismo. E a eliminação do terror como forma de luta política costuma ser um processo também político, de reabsorção dos grupos rebelados na estrutura política regular. Os exemplos estão em todos os cantos. Os mais recentes são a Palestina e o Iraque. Na primeira, a Fatah, que a seu tempo integrou com destaque a lista de inimigos terroristas dos Estados Unidos e de Israel, hoje é o peão de ambos na operação para isolar o Hamas. No Iraque, então, a coisa é mais gritante ainda. Os movimentos recentes dos Estados Unidos são de apoximação com os grupos sunitas, comunidade de origem dos principais núcleos insurgentes. É a nova carta de Washington para tentar estabilizar o país. O problema na atitude dos que chamei aqui no blog de "papagaios nativos" (Nós e a transição cubana) não é estar contra ou a favor do terrorismo. É estar sempre espera de um sinal da Casa Branca ou do Pentágono para saber qual é a opinião que devem emitir numa certa hora sobre certo assunto. Eram a favor da guerrilha islâmica no Afeganistão quando se tratava de expulsar os soviéticos de Cabul. Mas ficaram contra Osama Bin Laden depois do 11 de setembro. Se o alvo não tivessem sido as torres gêmeas em Nova York em 2001, mas o Kremlin em Moscou uns vinte anos antes, teriam possivelmente vibrado de prazer e júbilo com a ação da Al Qaeda. Leiam A teoria unificadora. Vou fechando por aqui. Assim como a Chacina da Lapa de 1976, o ataque de Álvaro Uribe s Farc não é uma tentativa de desbaratar um grupo guerrilheiro ou "terrorista". É uma ofensiva para tentar liquidar militarmente um grupo que poderá ter algum papel político numa Colômbia pacificada -e que visivelmente sinaliza esse desejo. É uma clara manobra para dificultar a conversão política de um grupo armado que poderia, sem problemas, seguir o exemplo, entre outros, da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), de El Salvador. Estrategicamente, Uribe fracassará. Assim como fracassou seu colega peruano Augusto Fujimori, que no poder saboreou a vitória final contra a guerrilha lunática do Sendero Luminoso e hoje amarga o banco dos réus, pois preferiu a cadeia ao exílio. De herói a bandido em poucos anos. E o que sobrou para a direita peruana? Agarrar-se a Alan García (que antes acusava de "populismo") para tentar conter a ascensão política do etnocacerista Ollanta Humala. A História, como o tempo (Einstein explicou), pode ir mais rápido ou mais devagar. Mas nunca caminha para trás. Ainda que de vez em quando dê essa impressão.
Atualização, s 12:05 - Vejam este interessante trecho de reportagem de hoje do The New York Times:
Because of the FARC’s resilient history at the heart of Colombia’s war, it has had contact with insurgencies and governments throughout Latin America and beyond, including the United States, which classifies the FARC and other armed groups in Colombia as terrorists. For instance, in 1998 a Clinton administration official, Philip T. Chicola, then the State Department’s director of Andean affairs, had a clandestine meeting with Mr. Reyes in Costa Rica in an effort to establish a way of communicating with the FARC during times of crisis. The meeting was described in a diplomatic cable written by Mr. Chicola in January 1999 and declassified in 2004. Also present at the meeting was Mr. Reyes’s wife, Olga Marín, a woman believed to be the daughter of the FARC’s top commander, Manuel Marulanda, and also reported to be present, and possibly wounded, in the raid on the jungle camp on Saturday.
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